Taça de Portugal: um panorama desolador!
Os «boatos» foram oficialmente confirmados através do site oficial da FPR: depois da desistência do Caldas e do Belas da segunda prova mais importante do calendário de Rugby de clubes nacional, é chegada a vez de três outros emblemas abandonarem a prova, deixando à vista de todos a enorme fragilidade do Rugby luso e das competições que se encontram sob tutela da FPR.
Desta feita, as equipas desistentes são o Évora, a UTAD e o Rugby da Lousã, emblemas pertencentes à chamada 1ª Divisão Nacional (que na prática é a segunda por ordem de importância), e que se encontravam integradas no grupo B (UTAD e Évora) e C (Lousã).
Trata-se de uma situação que não é nova, mas que deverá merecer da parte dos responsáveis federativos a melhor atenção. O Rugby luso é, pelo menos ao nível senior, cada vez mais os «emblemas do costume», facto que em nada prestigia e modalidade e, pior que isso, vai hipotecando o seu desenvolvimento nos planos regional e nacional.
As equipas desistentes são todas pertencentes a regiões exteriores às cidades de Lisboa (excepção feita ao Belas) e do Porto, o que reforça a ideia de que o Rugby - enquanto realidade do domínio desportivo mais ou menos sólida - permanece como um exclusivo das cidades de Lisboa, Porto e Coimbra (através da Académica e da E.S.Agrária).
Constatado o facto - ou seja, a desistência de cinco clubes - importa perceber as razões (suponho que todos tenham apresentado à FPR os motivos das respectivas desistências...) e actuar já sobre elas. Fazê-lo é, na prática, salvaguardar o futuro do Rugby em Évora, na Lousã, nas Caldas ou na região transmontana... Mas é mais do que isso: é dar um sinal de que a Federação está atenta e actuante na defesa dos interesses dos seus clubes associados, e que o Plano de Desenvolvimento Estratégico que aprovou não é só papel, mas ideias e medidas concretas a levar à prática!

Escrevia aqui alguém, na noite de ontem, que um dos motivos que estará na origem da desistência do Évora diz respeito à ausência de um campo para a prática da modalidade naquela capital de distrito do Alto Alentejo. É de facto triste, até tendo em conta o que referiu, no mesmo comentário, o nosso caríssimo leitor: em Évora existem campos com excelentes condições (melhoradas aliás devido ao estágio da selecção A de futebol, no Verão passado) vocacionados em exclusivo para a prática do futebol.
Desconheço, com franqueza, quais as relações entre o C.R. de Évora e os responsáveis políticos do município. Creio todavia que o Rugby eborense, o qual já tem uma tradição e um palmarés a defender (1), não pode parar (ou mesmo extinguir-se) devido à forma irracional como o poder político equaciona o desenvolvimento desportivo nas diferentes regionais do país. Chega de sustentar equipas de futebol (em especial aquelas que, à custa de enormes apoios regionais/municipais) praticam a modalidade num patamar profissional, sem outra fonte de receitas que não os cofres públicos!
Existem neste momento inúmeros motivos para que a FPR convoque, no respeito pelos seus estatutos, uma nova Assembleia-Geral extraordinária, para discussão de diversos temas que (infelizmente!) ficaram de fora da anterior AG, ocorrida há pouco mais de 15 dias. Pessoalmente, creio que estes novos dados são motivos mais do que suficiente para que o Rugby português se una e tome uma posição de força (concertada e unânime!), mostrando ao poder político e às diversas entidades locais que a modalidade tem de ser mais apoiada e acarinhada.
O Rugby não é, como me dizia ontem um grande senhor da modalidade (acerca do qual falaremos nos próximos dias...) uma escola de jogadores profissionais cujo único objectivo é ganhar dinheiro. Não! O Rugby é uma Escola de Homens, onde o fair-play, o respeito pelo adversário, a honra e a tradição desportiva no seu sentido mais positivo e até «romântico» estão ainda bem vivos.
Cinco clubes abandonaram a Taça de Portugal. Neste momento não me parece apropriado analisar as consequências «competitivas» destas desistências relativamente aos clubes que se mantêm em prova. O que me parece absolutamente necessário é perceber o porquê das desistências e, se a medida se justificar, decidir pública e concertadamente a própria suspensão da prova na temporada 2006/2007. Como medida de força, que obrigue as edilidades a dar ao Rugby a importância desportiva mas sobretudo FORMATIVA de que a modalidade se reveste.
Notas:
(1) Recorde-se que o Évora venceu, recentemente (2000/2001), um Campeonato Nacional de juniores e a respectiva Taça Ibérica. Mais: de acordo com o relatório relativo ao Biénio 2004/2006, o C.R.E. foi um dos clubes que mais contribuiu para o aumento do número de jogadores na categoria de iniciados, com mais 14 inscrições (tantos como a Agronomia).
(2) O dia 22 de Setembro será marcante na definição do futuro do CR Évora. Sobre o assunto, convido todos os nossos leitores a consultar a página web do clube alentejano. Basta clicar aqui.

8 Comments:
Lamento entretanto, e com franqueza, que a Comunicação Social ignore (ou melhor, não informe o país sobre...) esta situação.
Todos os dias leio «A Bola» e «O Jogo». O Record não, pois nem sabe o que Rugby é... E NADA!
Opções editoriais destes grandes diários...
10 páginas dedicados ao futebol do benfica... 8 páginas dedicados ao futebol do porto... 8 páginas dedicados ao futebol do sporting... mais umas 10 para o futebol nacional... e 3 ou 4 para o resto.
Resultado: fala-se do penteado do Simão, do telefonema do Major, de assuntos sem interesse RIGORSAMENTE nenhum! E o desporto fica sempre de fora.
É triste, mas «é o que há»!
Na sequência de mais esta machadada na modalidade, pergunto-me: de que serve sermos penta/hexa/hepta campeões europeus de sevens, se a realidade nua, crua e triste é esta?
Pessoalmente, muito embora preze o trabalho desenvolvido pelo Tomaz Morais, o facto é que ele faz o trabalha dele bem feito e terceiros se estão a esquecer de cumprir com as suas tarefas.
Por mim, trocava o brilho de todas as taças e troféus dos sevens, por uma implantação e um crescimento sustentado da modalidade.
Corremos o risco de deitar fora todo o excelente trabalho desta equipa técnica, e de sermos obrigados, mais tarde, a considerar este período como mais um dos epifenómenos positivos que ocorreram no râguebi português.
Como diz Spirituous, se nada se fizer o trabalho de tomás morais será... para nada.
Será tão difícil entender que se o panorama nacional não melhorar RAPIDAMENTE esta será uma "fase" e não um "futuro".
Tomás Morais não está mais novo e não é santo milagreiro. Ele e todos os seus "guerreiroS não podem levar às costas "sem prazo" uma Federação que não se organizada, não planifica, dirigida por pessoas claramente desclassificadas para as funções a que se propuseram e com uma visão tão limitada que até assusta...
Esta "fase" irá terminar, Tomás Morais irá ceder ao tempo ou a outro factor... e diremos "ah e tal, a culpa é dos media". Tretas, porque é a nós que cabe a missão de nos tornarmos importantes... se formos impossíves de ignorar, seremos notícia! É tão óbvio como isso, é a logica dos media.
Parabens ao BLOG. Ponto de encontro de quem gosta de Rugby no geral e que já nem vai ao site da FPR (por mim falo, que tudo o que importa é aqui noticiado...)
Não obstante a justeza dos comentários anteriores, direi o seguinte: este caso encontra-se relacionado com problemas ao nível da FPR (e da falta de valorização dos clubes e suas competições), mas é sobretudo relativo à política pública de apoio ao desporto.
Sejamos claros: os municípios são máquinas políticas que apoiam sobretudo «a bola» (leia-se, financiam equipas profissionais de futebol), para satisfazer caciques e para ganhar votos. Os políticos são, regra geral, pessoas com horizontes limitadíssimos, que não vivem a vida do comum dos mortais, e que por isso habitam um país imaginário (o tal oásis), no qual outros interesses que não os que os servem (e o futebol serve os interesses dos políticos) são contemplados.
Não queria aqui entrar em discussões políticas, até porque não é de «política» que estou a falar. Refiro-me a OPÇÕES MUNICIPAIS e NACIONAIS de apoio (ou não) às modalidades.
Como encaram o problema que vive o CR Évora? Não serão as responsabilidades da CME maiores do que as da FPR?
Sou muito crítico da FPR, mas neste caso creio que o Rugby tem de ser unir em torno da FPR (se a FPR tiver coragem para enfrentar os obstáculos municipais...) e agir de forma concertada! Nem que seja com a suspensão da Taça de Portugal.
O problema... resolvia-se depressa, acredito!
Relativamente ao site da FPR, caro Umberto, e mesmo tendo em conta todos os seus múltiplos problemas, não deixe de o visitar. É que o nosso Blog não tem «recursos» nem informação em tempo útil para cumprir a função INFORMATIVA na sua plenitude.
Um exemplo: o site da FPR publicou a convocatória para o Mundial de Sub-20, na Polónia. Nós ainda não o fizemos... para continuar a dar destaque ao problema da Taça!
É essa a função do Blog. Informar mas sobretudo servir como ponto de encontro dos amantes do Rugby. O que começou por ser um espaço 100% dedicado ao Belenenses é já um Blog mais amplo, sobre toda a modalidade. Creio que todos ganhamos com isso!
Sugiro por isso que continue a visitar o www.fpr.pt. É que, mal ou bem, é o que temos! E irá sempre encontrar lá informação que não colocaremos (por opção ou falta de tempo/espaço) aqui!
Onde escrevi «Mundial» queria escrever «Europeu».
Apenas uma adenda que não pretende corrigir o Rui Vasco, antes dar maior abrangência e clareza à sua posição: o problema é político e quase exclusivamente político!!!
E ele não reside na superficialidade mesquinha da baixíssima política e dos pequeníssimos políticos, antes reside na total e confrangedora ausência de uma Política de Desporto e Juventude!
Onde está o Desporto Escolar???
Que país é este que delira por antecipação com o Euro 2004, constrói 10 estádios de raiz e deixa a sua esmagadora maioria às moscas, servindo de casa (arrecadação?) a meia dúzia de clubes de futebol com ligações octopussianas à respectiva Câmara Municipal, quando não apenas e directamente ao cacique lá do sítio...
E as crianças, Senhor???
E as escolas, Senhor???
Esta é uma das áreas é que NÃO É NECESSÁRIO UM PACTO DE REGIME.
É necessário um regime!
Um regime claro, uma lei de bases assertiva e virada para o futuro, assente em princípios (mais do que consagrados) do desenvolvimento físico e psicológico das camadas mais jovens da nossa sociedade.
O râguebi não é, infelizmente, o único parente pobre nesta casa onde todos ralham e ninguém tem razão.
Mas sem termos desporto escolar, numa base séria, com escolas (!!!)apetrechadas para a prática do desporto, atribuíndo à velhinha e estafada Educação Física um peso curricular que não pode deixar de tão importante quanto o da Matemática e do Português, por exemplo, não podemos ter a necessária base de captação natural para todas as modalidades.
Deixariam algumas delas de constituirem autênticos feudos de "tios", "tias" e, em casos porventura mais graves, de perfeitos energúmenos disfarçados de "tios".
Como é que levamos tanto tempo a perceber o que é verdadeiramente importante?
E depois olhamos para os finlandeses e "deslumbramo-nos", ou, no nosso caso particular, somos levados a dizer que galeses, neo-zelandeses e outras identidades míticas do jogo da oval tem uma abordagem que roça a religiosidade...
Pois, mas têm um sistema de ensino...
Caro Rui Vasco,
"Como encaram o problema que vive o CR Évora? Não serão as responsabilidades da CME maiores do que as da FPR?"
Neste caso são. E o mesmo se diga da CM de Sintra, a que pertence o Belas, que tb tem escalões de formação há muitos anos e não têm um campo relvado para treinar.
Depende muito das câmaras: vejam-se os campos do Arcos de Valdevez, do Lousã, do Loulé, do Caldas, do Bairrada (concelho da Anadia). Tudo campos, pelo menos, decentes e que em todos ou quase todos os casos foram construídos com dinheiro das respectivas Câmaras. ´
Ouvi dizer que em Montemor tb estão a fazer um relvado só para o râguebi; espero que seja verdade.
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